Muitos são chamados, mas poucos são posicionados

Ensinamentos do Apóstolo Humphrey Chamados

"Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos" (Mateus 22:14). Esta é uma das declarações mais impactantes que Jesus já fez. Ela revela que receber um chamamento de Deus não é o mesmo que estar preparado para o cumprir. O céu pode anunciar o seu destino, mas a sua resposta determinará se ocupará o lugar que Deus preparou para si. Ao longo das Escrituras, encontramos homens e mulheres que receberam um chamamento divino, mas só aqueles que abraçaram o processo de Deus assumiram plenamente a sua missão.

A vida de Eliseu é um poderoso exemplo desta verdade. Deus já tinha instruído Elias a ungir Eliseu como seu sucessor (1 Reis 19:16). O chamamento tinha sido proferido muito antes de Eliseu sequer assumir o manto. Contudo, entre a promessa e o cumprimento, houve sacrifício, provações e um compromisso inabalável. Quando Elias disse repetidamente a Eliseu: "Fica aqui", Eliseu recusou, respondendo: "Tão certo como vive o Senhor e como vive a tua alma, não te deixarei" (2 Reis 2:2, 4, 6). Eliseu compreendeu que posicionar-se era tão importante como receber o próprio chamamento. Se tivesse voltado atrás, nunca teria testemunhado a transladação de Elias nem recebido a porção dobrada que desejava.

Toda a missão divina exige um preço. Deus não chama apenas pessoas; Ele prepara-as. A preparação envolve muitas vezes abdicar do conforto, deixar lugares familiares, abandonar relacionamentos tóxicos e permitir que Deus transforme o nosso caráter. Muitos admiram a manifestação pública dos servos de Deus sem reconhecer os sacrifícios privados que os capacitaram para o ministério.

Um dos primeiros requisitos para assumir o seu chamamento é a purificação. O apóstolo Paulo escreveu: "Portanto, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado, útil ao Senhor e preparado para toda boa obra" (2 Timóteo 2:21). Antes de confiar uma maior responsabilidade, Deus lida frequentemente com o vaso. O orgulho, as concessões, a amargura, as distrações e os desejos carnais tornam-se obstáculos que precisam de ser removidos. Deus não está simplesmente interessado em dar dons a uma pessoa; Ele está interessado em preparar um vaso que possa transportar a Sua glória.

A verdade extraordinária é que, se nos recusarmos a purificar-nos, o próprio Deus iniciará o processo. Jesus declarou: "Toda a vara que dá fruto, Ele a limpa, para que dê mais fruto ainda" (João 15:2). A poda raramente é confortável, mas tem sempre um propósito. As coisas que Deus remove são, muitas vezes, as mesmas que nos impedem de dar mais fruto. Por vezes, Ele remove hábitos; por vezes, relacionamentos; por vezes, mentalidades; e, por vezes, fases da vida que se tornaram demasiado confortáveis. O que parece uma perda é, muitas vezes, uma preparação divina.

Uma das maiores tragédias é ver pessoas com um potencial extraordinário que nunca alcançam o que Deus planeou para elas. As suas vidas testemunham que o dom por si só nunca é suficiente. Muitos transportam chamamentos genuínos, mas permanecem impedidos porque se recusam a abandonar atitudes, crenças ou padrões que os limitam continuamente. O destino adiado está muitas vezes ligado não à ausência de um chamamento, mas à presença de obstáculos não resolvidos.

Outro passo essencial para alcançar o chamamento é vencer a ignorância. As Escrituras dizem: "O meu povo foi destruído por falta de conhecimento" (Oséias 4:6). A ignorância é uma das maiores armas de Satanás contra o povo de Deus. Um dom não amadurece automaticamente só porque existe. Ele precisa de ser compreendido, desenvolvido e disciplinado. Deus pode colocar um potencial tremendo dentro de um indivíduo, mas sem conhecimento esse potencial permanece muitas vezes adormecido.

É por isso que as Escrituras enfatizam o crescimento espiritual através da instrução. Paulo explicou que "o herdeiro, enquanto menor, em nada difere do servo... mas está sob tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai" (Gálatas 4:1-2). Mesmo que um herdeiro possua uma herança, não pode usufruir dela plenamente até que seja devidamente instruído. Da mesma forma, toda a vocação requer professores, mentores, instrução, correção e orientação espiritual. Embora Deus certamente ensine as pessoas pessoalmente através do Seu Espírito, Ele também usa os dons que colocou no Corpo de Cristo "para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério" (Efésios 4:11-12).

Aqueles que se recusam a receber instrução atrasam frequentemente o seu próprio progresso. Podem até possuir dons genuínos, mas, sem compreenderem o funcionamento desses dons, enfrentam dificuldades desnecessárias. Muitas batalhas que os crentes enfrentam não ocorrem porque Deus os abandonou, mas sim porque nunca se equiparam com o conhecimento necessário para trilhar com sabedoria o seu propósito.

Deus coloca também naqueles a quem chama fome santa. Paulo encorajou os crentes a "desejarem ardentemente os melhores dons" (1 Coríntios 12:31), enquanto mais tarde escreveu: "Desejem com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar" (1 Coríntios 14:1). A fome espiritual é a evidência de que Deus está a conduzir alguém para uma compreensão mais profunda do Seu propósito. Aqueles que procuram continuamente um maior entendimento posicionam-se para uma maior utilidade. Deus responde àqueles que O procuram diligentemente, e não de forma superficial.

O conhecimento, porém, não é o estádio final. Após a instrução, surge a oportunidade. Deus proporciona espaço para praticarmos o que Ele ensinou. David aprendeu a derrotar leões e ursos antes de enfrentar Golias (I Samuel 17:34-37). Os discípulos ministraram sob a liderança de Jesus antes de serem enviados às nações. Toda a grande missão começa com pequenos atos de obediência. A fidelidade em locais discretos prepara-nos para uma maior visibilidade. Jesus disse: "Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito" (Lucas 16:10).

Preparar-se para o seu chamamento envolve, portanto, tanto a entrega como a procura. Significa permitir que Deus remova tudo o que impede o Seu propósito, enquanto procura ativamente o conhecimento, a sabedoria e a experiência necessários para a sua missão. O chamamento não é simplesmente descoberto; é cultivado através da obediência.

A pergunta a que todo o crente deve responder não é se Deus o chamou. A questão mais importante é se ele está disposto a pagar o preço para estar onde Deus o chamou. O Céu já falou de muitas vidas. O convite foi feito. A missão foi preparada. Mas só aqueles que estiverem dispostos a render-se, a serem podados, a aprender, a crescer e a perseverar, encontrarão, em última análise, a posição onde o propósito de Deus poderá ser plenamente revelado.

Muitos são chamados. Poucos são posicionados. A diferença reside no que acontece entre o chamamento e a concretização.

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