A dor é muitas vezes apresentada como uma das maiores ferramentas de ensino de Deus, levando muitos crentes a presumir que cada dificuldade que enfrentam foi pessoalmente designada por Deus para moldar o seu caráter. Embora seja verdade que o sofrimento pode produzir maturidade e transformação, as Escrituras revelam um quadro diferente. A dor pode tornar-se uma moeda de troca que muda as pessoas, mas não é a moeda de troca preferida de Deus. A moeda de troca preferida de Deus sempre foi a Sua Palavra.
O profeta Isaías escreveu a respeito de Cristo: “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades… e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53:5). À primeira vista, parece que a cura veio através da dor, mas a verdade maior é que a dor por si só nunca foi suficiente. Se Jesus tivesse apenas sido ferido e nunca tivesse ido para a cruz, a humanidade poderia ter testemunhado a cura, mas a redenção nunca teria sido alcançada. Não foi o sofrimento em si que salvou a humanidade, mas a obediência perfeita e o sacrifício do Filho de Deus. A cruz demonstra que a dor sem propósito não tem poder redentor.
A história do filho pródigo ilustra ainda mais este princípio. Depois de exigir a sua herança, saiu de casa do pai, esbanjou tudo e acabou por passar fome e alimentar porcos. O seu sofrimento transformou-o, e Lucas regista que “caiu em si” antes de decidir regressar a casa. No entanto, a questão importante é se esta dolorosa jornada era necessária. A resposta é não. Poderia ter aprendido a humildade, a sabedoria e a gratidão enquanto ainda vivia sob os cuidados do pai. A sua dor não era o método de ensino do pai, mas a consequência das suas próprias escolhas. O pai desejava relação e filiação, não sofrimento.
Tiago deixa isso inequivocamente claro quando escreve: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘Sou tentado por Deus’. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e o seduz” (Tiago 1:13-14). A dor entra muitas vezes na vida das pessoas porque são atraídas pelos seus próprios desejos e decisões, e não porque Deus se compraz em fazê-las sofrer. Deus não usa as ferramentas do diabo para educar os seus filhos. Ele usa a Sua verdade. Ele testa os homens através da obediência à Sua Palavra, e não através de dificuldades.
Este padrão também pode ser visto no ministério de Jesus. Quando viu as multidões que O seguiam pelo deserto, Ele reconheceu a sua fome e multiplicou o pão para satisfazer a sua necessidade imediata. Contudo, após testemunharem o milagre, muitos continuaram a segui-lo pelo motivo errado. Jesus confrontou-os em João 6, declarando que o procuravam não porque compreendiam o seu propósito ou quem era, mas porque tinham comido e se tinham saciado. A sua atenção fixara-se no pão em vez de naquele que o providenciara. Desejavam a provisão mais do que o Provedor.
O mesmo desafio existe dentro do cristianismo hoje. Muitos crentes procuram profecias, vitórias, libertação, alívio temporário e o pão com grande paixão, mas dedicam pouco tempo a procurar o próprio Cristo. Estão à procura do pão enquanto negligenciam o Pão da Vida. Deus certamente preocupa-se com as necessidades, mas o Seu propósito final não é simplesmente remover o desconforto temporário. O Seu maior desejo é revelar o Seu Filho e firmar os Seus filhos na sua identidade e relação com Ele.
O maior erro do filho pródigo não foi apenas abandonar o lar, mas sim não compreender o que o tornava rico. Acreditava que a herança era a sua maior posse quando, na realidade, o seu maior privilégio era ser filho. Ao concentrar-se na riqueza em vez do relacionamento, perdeu ambos. Só depois de tudo ter desaparecido é que percebeu que a filiação era mais valiosa do que as bênçãos materiais. De forma semelhante, muitos cristãos deixam-se consumir pelo que Deus lhes pode dar, enquanto deixam de valorizar a posição que já possuem em Cristo.
Deus é plenamente capaz de redimir a dor e usá-la para o bem, mas isso não significa que a dor tenha sido o Seu propósito original. Um pai extremoso prefere ensinar o seu filho através da instrução do que através de uma tragédia desnecessária. As Escrituras revelam consistentemente um Deus que fala, instrui, adverte e guia antes mesmo de o julgamento chegar. A Sua Palavra tem o propósito de moldar os corações muito antes que as consequências se tornem inevitáveis.
A dor pode humilhar uma pessoa. Pode expor o orgulho, revelar prioridades erradas e gerar arrependimento. Neste sentido, pode funcionar como uma moeda de troca que compra sabedoria após decisões insensatas. Contudo, a intenção de Deus sempre foi maior do que isso. O Seu desejo é que os Seus filhos e filhas cresçam através da revelação, da obediência e da intimidade com Ele, e não através de sofrimentos evitáveis.
A maior lição de todas é que o propósito de Deus nunca foi a dor em si, mas a redenção. Cristo não veio apenas para partilhar do sofrimento da humanidade, mas para a libertar da escravidão que o pecado e o sofrimento produzem. A moeda chamada dor pode mudar o caráter de uma pessoa, mas a moeda que Deus sempre escolheu para transformar o Seu povo é a Sua Palavra viva.